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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Trabalho escravo existe. Ruralistas, parem de negar.

TO: BANCADA RURALISTA

TRABALHO ESCRAVO EXISTE. RURALISTAS, PAREM DE NEGAR
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Nos dias de hoje, a escravidão é outra e se apresenta de diferentes maneiras. Em todas elas, os trabalhadores têm sua dignidade negada por meio de condições degradantes de trabalho ou por jornadas que vão além do que se pode suportar, sendo em alguns casos forçados a trabalhar sob violência, ameaça ou dívida fraudulenta. São tratados como mercadoria.

Graças à adoção de uma nova lei mais dura contra o trabalho escravo (PEC do Trabalho Escravo 57A/1999) temos como melhorar a vida de milhares de brasileiros hoje submetidos à escravidão. Este é um problema grave a ser enfrentado com coragem. A solução não é negá-lo. Trabalho degradante é trabalho escravo, e trabalho escravo é crime. 

Ruralistas, aprovem a nova lei do trabalho escravo (PEC) sem alteração na definição legal do trabalho escravo.

Why is this important?

Desde 1995, mais de 46 mil trabalhadores foram resgatados da escravidão. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) reconhece o Brasil como uma referência na luta contra a escravidão contemporânea. Mas este não é suficiente. Precisamos de uma legislação mais radical contra esse crime horroroso.

A luta pela aprovação da PEC do Trabalho Escravo já tem 19 anos. Pelas pesadas consequências legais resultando desta prática, a nova lei irá dissuadir o empresariado de usar o trabalho escravo. Quando aprovada a PEC, o empregador irá perder sua propriedade se nela for constatado o uso de trabalho escravo. Essa propriedade será destinada a famílias sem terra ou sem teto.

Graças a pessoas como você, comprometidas com a luta pela erradicação da escravidão, a PEC do Trabalho Escravo foi aprovada pela Câmara dos Deputados. Agora que estamos perto de a lei ser definitivamente aprovada no Senado, os Ruralistas querem alterar a definição da escravidão moderna na atual legislação, descaracterizando o que é trabalho escravo.  Isso faria com que milhares de casos em que pessoas estão submetidas a condições degradantes análogas às de escravos deixassem de ser considerados.

Está na hora de acabar com a escravidão no Brasil. Exija que a bancada ruralista aprove a nova lei do trabalho escravo (PEC) sem alteração na definição legal do trabalho escravo.

28.01. Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo

Nota da CNBB por ocasião do Dia de Combate ao Trabalho Escravo
TER, 28 DE JANEIRO DE 2014 09:42           
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB divulgou hoje, 28 de janeiro, nota por ocasião do Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo. A data é uma homenagem a quatro auditores do Ministério do Trabalho e Emprego que foram assassinados, em janeiro de 2004, quando investigavam a suspeita de uso de mão de obra escrava em fazendas de feijão em Unaí (MG).
No texto, a Presidência da CNBB faz menção à Campanha da Fraternidade que, este ano, aborda o tema “Fraternidade e o Tráfico Humano”.  O tráfico para a exploração no trabalho é uma das modalidades do tráfico humano. “Tráfico humano e trabalho escravo são atividades que têm, na miséria e na desigualdade social, espaço fértil para a ação de traficantes e exploradores, movidos pela ganância e pela certeza da impunidade”, dizem os bispos na nota, que segue abaixo, na íntegra.
A Campanha da Fraternidade 2014 será lançada na Quarta-feira de Cinzas, no dia 5 de março. Tem como lema “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1).
NOTA DA CNBB POR OCASIÃO DO DIA NACIONAL DE COMBATE AO TRABALHO ESCRAVO
1. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB se une neste 28 de janeiro - Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo – a todos que se empenham para eliminar a lamentável prática do trabalho escravo que envergonha o país e avilta a dignidade humana.
2. Esta data nos traz à memória, neste ano, os dez anos do assassinato dos profissionais do Ministério do Trabalho, mortos de forma brutal enquanto cumpriam a tarefa de fiscalização de possível situação de trabalho escravo no Município de Unaí-MG. Remete-nos também à Campanha da Fraternidade-2014 que conclamará a sociedade brasileira a tomar consciência do tráfico humano, “uma atividade ignóbil, uma vergonha para as nossas sociedades que se dizem civilizadas”, conforme alerta do Papa Francisco.
3. Tráfico humano e trabalho escravo são atividades que têm, na miséria e na desigualdade social, espaço fértil para a ação de traficantes e exploradores, movidos pela ganância e pela certeza da impunidade. Implicam grave desrespeito aos direitos da pessoa humana, à sua dignidade, e, no caso do trabalho escravo, negam o direito de livre exercício da atividade laboral. Identificar e denunciar tais crimes é dever de toda a sociedade.
4. Causa perplexidade a disseminação da prática do trabalho escravo em diferentes ramos da economia, envolvendo pessoas do campo e da cidade, na agropecuária, na construção civil, na indústria têxtil, nas carvoarias, nos serviços hoteleiros e até em situações familiares classificadas como servidão doméstica. São imigrantes que chegam ao Brasil em busca de trabalho e sobrevivência, e brasileiros que migram internamente sonhando melhores condições de vida.

5. Diante desta triste realidade, urge reafirmar de forma inequívoca o inalienável valor da vida e da dignidade humanas que transcendem qualquer atividade econômica. Criada à imagem e semelhança de Deus, toda pessoa humana é templo de Deus que não pode ser profanado.
6. Cabe ao Estado brasileiro, em primeiro lugar, adotar medidas que erradiquem esta chaga social que vitima milhares de irmãos e irmãs. É sua responsabilidade defender e proteger os que lutam pelo fim do trabalho escravo, bem como garantir às vítimas desta prática infame a reinserção na sociedade. É dever do Estado, ainda, punir de maneira exemplar os responsáveis por este crime que clama aos céus.
7. Que Jesus Cristo, enviado do Pai para proclamar a libertação aos presos e dar liberdade aos oprimidos (cf. Lc 4,18), seja a força e a luz de todos que lutam por um Brasil justo e solidário.

Raymundo, Cardeal, Damasceno Assis
Arcebispo de Aparecida – SP
Presidente da CNBB

Dom José Belisário da Silva
Arcebispo de São Luís
Vice-presidente da CNBB

Dom Leonardo Steiner
Bispo-Auxiliar de Brasília – DF
Secretário-Geral da CNBB



terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Comércio sexual infantil do Brasil sobe em 2014 a Copa do Mundo se aproxima

Comércio sexual infantil do Brasil sobe em 2014 a Copa do Mundo se aproxima

Criança comercial do Brasil sexo: Jessica, 16, que foi preso durante uma batida em um clube de sexo, mostra sua tatuagem em um abrigo para meninas em Fortaleza.
A pequena figura em minúsculos calções brancos e um top sem alças rosa se ​​inclina contra uma cerca de metal do lado de fora de uma escola na cidade de Fortaleza, capital do estado do Ceará, nordeste do Brasil .
Ela tem lábios revestidos de brilho, e sua cabeça amarelo, segurando o cabelo comprido, brilha à luz do abajur junto Avenida Juscelino Kubitschek, que liga a cidade à arena Castelão, uma das sedes para aCopa do Mundo de 2014 . Um carro puxa para cima. A menina sobe dentro
Esta é uma cena comum em todo o estádio, em Fortaleza, considerado Brasil da criança prostituição de capital e um ímã para o sexo turismo, de acordo com autoridades locais.
Travestis também trabalham nas calçadas empoeiradas desta via recém-renovado, mas as meninas estão em maior demanda. "Assim que atingiu a avenida estão pegou", diz Antônia Lima Sousa, um procurador da República que trabalha em crianças direitos das em Fortaleza. "É realmente uma questão de minutos. Você vai encontrá-los em torno da cidade durante o dia também."
Apesar de mais de uma década de governo compromete-se a erradicar a prostituição infantil, o número de profissionais do sexo da criança no Brasil era de cerca de meio milhão em 2012, segundo o Fórum Nacional de Prevenção do Trabalho Infantil, uma organização não-governamental.
Isso é um aumento de cinco vezes desde 2001, quando 100 mil crianças trabalhavam no comércio do sexo, de acordo com estimativas do Unicef, a caridade das crianças das Nações Unidas.
E com a Copa do Mundo se aproximando, em junho, funcionários e ativistas temem uma explosão na prostituição infantil, como profissionais do sexo migram para as grandes cidades dos estados interiores e cafetões recrutar mais jovens para atender à demanda crescente de fãs de futebol locais e estrangeiros.
"Estamos preocupados exploração sexual vai aumentar nas cidades-sede e em torno deles", diz Joseleno Vieira dos Santos, que coordena um programa nacional de combate à exploração sexual de crianças, na Secretaria de Direitos Humanos do Brasil. "Nós estamos tentando coordenar os esforços, tanto quanto possível com os governos estaduais e municipais para entender a extensão do problema."
Mas as autoridades têm uma batalha em suas mãos, como profissionais do sexo se preparam para lucrar com um comércio pára-choques.
A Associação Mineira Estado de Prostitutas, que representa os trabalhadores do sexo em um dos maiores estados do Brasil, está até oferecendo aulas gratuitas de inglês para prostitutas na capital Belo Horizonte, outra cidade-sede da Copa do Mundo.
"Haverá muito mais pessoas que circulam nesta área durante os jogos, com certeza, ea cidade estará cheia de turistas", diz Giovana, 19, um travesti que trabalha uma esquina perto do estádio Castelão. "Eu sei que vai haver mais trabalho para todos - mulheres, meninas, todo mundo".
CHORUDAS
O torneio deve atrair 600 mil visitantes estrangeiros para o Brasil, que vai gastar cerca de 25 bilhões de reais (R $ 6,5 bilhões), enquanto viaja por todo o país, o Instituto Brasileiro de Turismo, Embratur, diz.
O campeonato pode injetar 113bn reais na economia em 2014, a Fifa disse, citando um relatório da Ernst & Young.
O governo do Brasil terá gasto 33 bilhões de reais em estádios, transporte e outras infra-estruturas no momento em que o torneio começa, assim como 6 milhões de libras em publicidade. Em contrapartida, muito pouco está sendo gasto na luta contra a exploração sexual de menores, os ativistas dizem.
A Secretaria de Direitos Humanos reservou 8m de reais para as cidades-sede para configurar projetos de combate à prostituição infantil, mas nem todas as cidades têm programas para absorver os fundos, diz Santos.
Seu departamento está finalizando uma revisão de prostituição infantil em locais-chave e, em seguida, decidir que medidas tomar. Mas todos os programas só vai arranhar a superfície.
"Nós percebemos que estamos apenas tocando a ponta do iceberg com essas ações para a Copa do Mundo, mas esperamos capacitar e implementar programas mais duradouros no futuro", diz Santos.
Além Secretaria de Direitos Humanos, o governo não pode fornecer dados precisos sobre os gastos totais para combater a prostituição infantil, mas ativistas dizem alguns esquemas foram fechados. Eles argumentam que o governo não está fazendo o suficiente para resolver o problema.
"Este assunto não é realmente parte da agenda do governo e não vemos a disposição de unir esforços ou aumentar os recursos para enfrentar a exploração sexual de crianças", diz Denise Cesário, gerente executiva da Fundação Abrinq, um parceiro local da Save the Children International.
A atração de Fortaleza
O turismo sexual ocorre em todo o Brasil, mas Fortaleza - um dos principais destinos turísticos do Nordeste, com praias de areia branca e cerca de 300 dias de sol - é o centro principal da indústria.
A cultura do machismo, combinado com a pobreza extrema e uso de drogas, criou o ambiente perfeito para a exploração sexual, dizem os trabalhadores sociais como Cecília dos Santos Góis, que trabalha para Cedeca, caridade dos direitos da criança.
"As mulheres no Nordeste têm sido tradicionalmente tratadas como cidadãos de segunda classe, como objetos, mesmo", diz ela. "Muitos pais vêem suas filhas como fonte de renda e que é uma atitude cultural que é difícil de mudar."
Mais telefonemas são feitos a partir de Fortaleza para um número gratuito em todo o país para denunciar a exploração sexual de crianças do que de qualquer outra cidade brasileira em uma base per capita, dizem especialistas.
Muitos dos trabalhadores do sexo jovens de Fortaleza ver a prostituição como uma forma de escapar suas circunstâncias. Mas, para 16 anos de idade, Jessica, uma morena alta, o seu plano de fuga pousou-a em apuros.
Ela começou o trabalho sexual com clientes locais, ganhando cerca de US $ 18 (£ 11) a noite, antes de se formar a boates maiores e grupos de turistas estrangeiros para cerca de US $ 90 por noite.
A polícia prendeu em setembro em um ataque a um clube na praia de Iracema, um bairro lotado repleto de animados restaurantes, hotéis e bares.
Levaram-na para um dos quatro abrigos para prostitutas menores de idade, uma casa de dois andares discreto em um bairro de classe baixa, acessível apenas através de um portão de ferro estreita observava o tempo todo por seguranças. Ela está à espera de um juiz para decidir se ela pode voltar para casa para sua mãe.
À espera de um príncipe
Sentado no pequeno quarto que ela divide com três meninas mais jovens, Jessica diz que um de seus clientes regulares, um espanhol, prometeu levá-la para a Europa. "Eu disse a ele que eu tinha 18 anos e eu estava ficando meu passaporte", diz ela, colocando um top cor de arco-íris em calças tropical-impressão verde e amarelo. "Eu paguei 500 reais para uma identidade falsa e estava guardando dinheiro para comprar um passaporte falso. Mas no final eu estava com medo de ir."
Leonora Albuquerque, um dos coordenadores do abrigo, conta a história de Jessica é típico. "Como tantas meninas que entram em esta vida, Jessica tem fantasias que ela vai encontrar seu príncipe encantado - um cliente estrangeiro que vai se apaixonar por ela - e ele vai levá-la para a Europa e comprar suas roupas extravagantes, perfumes, jóias ", diz ela.
Os proxenetas e os clientes raramente são punidos e quando os promotores conseguem construir um caso contra eles, os sobreviventes muitas vezes mudar seus testemunhos e os casos são jogados fora, diz Francisco Carlos Pereira de Andrade, um promotor de justiça penal, que é especializada em exploração infantil.
Dos 2.000 casos antes de seu departamento, que lida com a violência sexual contra as crianças, apenas cerca de 20 envolvem a prostituição infantil.
O rosto do turismo sexual em Fortaleza também está mudando, tornando-o mais difícil de capturar criminosos, diz Sousa.
Em vez de trabalhar nas ruas, grupos organizados de cafetões, gerentes de hotéis e taxistas recrutar jovens. Clientes estrangeiros encomendar as prostitutas menores de idade, antes de chegar em Fortaleza e eles são entregues diretamente para os seus hotéis, Sousa acrescenta.
Meninas no menu
Sexta à noite na praia de Iracema e um pequeno grupo de homens loiros alemães estão bebendo cerveja em mesas na calçada, acompanhado de perto por um segurança.
Seis profissionais do sexo de adultos estão por perto, alguns sentados com eles, balançando os cabelos de um lado para o outro. Mas os turistas têm outra coisa em sua mente.
"Eles estão à espera de um sinal para que eles saibam as meninas eles encomendados estão prontos", diz o assistente social Góis, em uma de suas rondas de vigilância de rotina dos centros de prostituição infantil."O bar está envolvido. Os taxistas que esperam no canto provavelmente estão envolvidos também. E alguns hotéis nas proximidades fazem parte desta rede."
Embora o turismo sexual internacional é destaque em Fortaleza, que representa apenas um terço de todos os casos de prostituição infantil relatados. Prostitutas com clientes brasileiros, do Ceará ou estados vizinhos, são muito mais comuns, dizem os promotores.
Esse foi o caso de Vanessa, que tinha 13 anos quando a polícia a pegou em outubro, não muito longe do estádio Castelão.
Ela deixou sua casa em um bairro pobre, quando ela tinha 10 anos, depois de seu padrasto começou a bater nela, ela diz. Ela viveu na maior parte nas ruas, indo para abrigos de vez em quando e passar noites com os clientes, alguns dos quais ela chama de amigos.
Suas bochechas rechonchudas, dentes brancos perfeitamente alinhados e olhos brilhantes tornam difícil acreditar que ela está passando por tratamento para abuso de cocaína e crack. "Eu quero estudar,. Que eu realmente gosto de matemática Mas às vezes eu só quero desaparecer e ir morar em Marte com os astronautas", ela ri.
No mês passado, Vanessa invadiu a sala de manutenção no abrigo, pegou uma escada e escalou o muro de 2,5 metros em torno do edifício, de acordo com Albuquerque, que trabalha no abrigo. Ela convenceu outras duas meninas, com idades entre 12 e 13, para voltar com ela para a área do estádio Castelão. Foi a quarta vez que ela havia escapado em menos de seis meses.
"É muito difícil convencer essas meninas para levar uma vida normal", acrescenta Albuquerque. "A maioria deles acha que o abuso ea venda de seus corpos é apenas um fato da vida."


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Tráfico de Pessoas: a destruição de sonhos e vidas .Entrevista com Irmã Eurides Alves de Oliveira, publicada na edição 443, fevereiro de 2014.Mundo Jovem

É degradante pensarmos na pessoa como mercadoria. Inverte totalmente a essência do que é ser humano e esvazia a pessoa da sua dignidade e do seu direito de ser livre. Com a globalização, intensificaram-se os processos de migração e de tráfico humano, uma realidade que interpela todas as pessoas de boa vontade a se indignarem, a se informarem e a buscarem os meios de erradicar esse verdadeiro crime que destrói a vida e os sonhos de muita gente, especialmente de jovens. Entrevistamos a irmã Eurides Alves de Oliveira (ICM), coordenadora da Rede Um Grito Pela Vida, uma rede de enfrentamento ao tráfico de pessoas, vinculada à Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) e à CNBB.
  • O que a levou a trabalhar com o tema e a causa do tráfico de pessoas?
    Sensível à questão dos pobres, que sempre foi a origem da minha vocação, esse compromisso foi se direcionando para a questão das mulheres. A grande incidência da violência doméstica e de uma certa forma da não participação das mulheres nos espaços públicos da sociedade e na Igreja me levou a um engajamento mais direto com a questão das mulheres vítimas da violência. Nós tínhamos muitas congregações trabalhando com a migração, com a violência contra as mulheres, com crianças e adolescentes em situação de risco, ou seja, sujeitos em potencial para o tráfico humano. Eu, pessoalmente, também não tinha noção. Alguma coisa por meio de filme ou aquela ideia estereotipada que temos sobre as mulheres que vão para Europa e são escravizadas, mas algo bem longe de nós. Mas então fizemos uma capacitação e essa foi uma experiência que me tirou o véu. Eu me dei conta de que aquelas pessoas com quem trabalhávamos eram vítimas de violência, da exclusão, das vulnerabilidades. Eram também vítimas em potencial do tráfico e que muitos casos de tráfico estavam acontecendo bem perto de nós e não percebíamos.
  • Foi a partir daí que nasceu a Rede Um Grito pela Vida?
    Sim. Percebemos que o tráfico de pessoas é um mecanismo de comércio e crime que acontece longe e perto de nós. O tráfico é uma rede organizada do crime. E para enfrentá-lo também tínhamos que ter uma rede organizada de enfrentamento. Daí nós decidimos: vamos formar um grupo e vamos ser uma rede. E saímos dali com um pequeno plano, em que a meta principal era sensibilizar as nossas instituições da existência do problema. Hoje nós temos 22 núcleos espalhados em 19 estados. Os núcleos funcionam de forma descentralizada, com as mais diversas atividades, mas o foco maior é na prevenção, na incidência política e na linha da assistência às vítimas como canais de mediação. Nos nossos espaços não há abrigos ou equipe técnica para assistência. Quando aparecem os casos, fazemos a mediação com a secretaria de saúde, com os órgãos do governo, nas casas de abrigo, nas delegacias de mulheres. Em cada localidade, vamos descobrindo onde estão os canais de apoio a esses casos.
  • O que é o tráfico de pessoas?
    Eu costumo dizer que o tráfico de seres humanos é a demonstração da irracionalidade do sistema capitalista. Infelizmente, ele é tratado na maioria das vezes apenas como um crime de ordem policial. Mas eu diria que ele é um problema difícil de se definir porque é mais uma das expressões das mazelas ou das práticas desse sistema econômico firmado no lucro e na mercantilização de tudo, especialmente na mercantilização da vida. E aí ele pode ser analisado das mais diversas formas: apenas como crime, apenas como uma questão moral, quando se trata da exploração sexual. Mas nós partimos da compreensão de que se trata de uma prática de violação dos direitos humanos, violação da dignidade das pessoas, que fere profundamente a sua integridade. Então trabalhamos a partir dos direitos humanos violados. Há toda essa dimensão da coerção da liberdade que nós devemos ter no direito civil, que é também, para nós, um direito teológico: Deus nos fez para sermos livres. Outro viés é que se trata de um negócio, que demanda ações socioeconômicas e também ação jurídica e criminalística.
  • Então, parece que é um tema muito complexo...
    Não é um tema fácil. É uma realidade presente, mas que de uma certa forma fica invisível, porque aparece muitas vezes noutros guarda-chuvas: da pobreza, da exploração, das desigualdades e da discriminação de gênero, da falta de trabalho, do turismo sexual etc. Então, o tráfico de pessoas está presente em muitas situações de vulnerabilidade em que as pessoas vivem. E, sobretudo, é um mecanismo de fazer muito dinheiro, porque hoje é considerado a terceira fonte mais lucrativa do mundo e está junto com as drogas e as armas.
  • Como é tratado o tráfico de pessoas pelos governos?
    A definição de tráfico de pessoas mais aceita mundialmente é a do Protocolo de Palermo, nome pelo qual ficou conhecida a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional", realizada na Itália, em 1999. Ele define que para ser tráfico de pessoas deve haver um recrutamento da pessoa, tirada do seu habitat, do seu país, do seu estado ou município para outro, por meio de coerção, uso da força, engano, ilusão, para além da sua vontade ou com o consentimento a partir do engano e da mentira. A pessoa é levada para uma outra situação que não lhe dá liberdade, para fins de exploração, onde é mantida em situação de escravidão. Essa exploração do tráfico de pessoas tem várias faces: a exploração sexual (86% das vítimas para a exploração sexual são mulheres e crianças, sobretudo adolescentes), em que a maioria é vítima de situação de vulnerabilidade ou porque já sofreu violência familiar, ou já estava no mercado da prostituição e viu nas propostas que lhe faziam a possibilidade de ganhar mais ou o sonho de ir para fora do país. A outra face é a exploração no trabalho, de forma escravocrata, porque infelizmente a abolição passou longe. No Brasil, nós temos mais de 25 mil trabalhadores em situação de escravidão, principalmente nas áreas rurais, trabalhadores da cana, dos empregos temporários, das olarias ou nos grandes projetos.
  • Onde vocês buscam inspiração e disposição na realização do trabalho contra o tráfico humano?
    A fundamentação principal é que o nosso Deus é o Deus da vida. O nosso Deus é um Deus da liberdade, que não pode compactuar com a exploração e com a escravidão. Podemos perpassar a Bíblia de ponta a ponta e vamos encontrar as ações de Deus sempre como um Deus que defende a vida, muito atento ao clamor e ao sofrimento do povo. O texto que faz a gente não se omitir e não ficar indiferente com essa realidade é do livro do Êxodo: um Deus que vê, que escuta o clamor, que desce e que se põe a caminho com o seu povo, dizendo que não quer o seu povo escravo. Então tem que fazer caminho para libertar o seu povo. Também a profecia de Amós diz que nós não podemos compactuar com a injustiça, com as balanças em função do lucro, que roubam e que sacrificam as pessoas, que vendem o pobre por um par de sandálias. Portanto a venda de pessoas é radicalmente criticada pela profecia de Amós. Sobre mulheres vítimas de exploração sexual nós temos vários episódios bíblicos em que, para Jesus, a mulher não pode ser considerada objeto, não pode simplesmente ser julgada pela sua condição de pecadora. O papa Francisco também dizia que o tráfico de seres humanos é uma realidade vergonhosa nas sociedades que se dizem civilizadas e que ela é a mais intensa escravatura do século 21. E que os cristãos não podem ficar indiferentes a essa realidade.
  • O que o lema da Campanha da Fraternidade, "É para a liberdade que Cristo nos libertou", nos propõe?
    São Paulo prega a boa notícia como liberdade, como contraposição a uma pseudoliberdade que escraviza. Se lermos as cartas, vamos encontrar várias recomendações contra a libertinagem, em relação à bebedeira, ao abuso de poder etc. E diz: "isso escraviza, e é para a liberdade que Cristo nos libertou". Uma das questões que alimentam o crescimento da inserção das pessoas no mercado do tráfico é a cultura do prazer e do consumo. Além disso há o poder midiático de sedução para uma liberdade falsa, que busca a realização de um sonho pautado no ter, no tudo pode, que resulta muitas vezes numa frustração, num sonho de liberdade que vira pesadelo. Temos que trabalhar o sentido da liberdade. Acho que o texto do lema tem muito a ser explorado, porque a liberdade é que garante a vida, e não uma liberdade que causa a morte.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

CARTA FINAL DO 13º INTERECLESIAL DE COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE DO BRASIL AO POVO DE DEUS

Irmãs e irmãos da caminhada,

“Maria pôs-se a caminho... entrou na casa e saudou Isabel... bem aventurada tu que acreditaste... as crianças estremeceram de alegria no ventre ...” (cf. Lc 1,39-45)
Em atitude romeira, o povo das Comunidades Eclesiais de Base de todos os cantos do Brasil colocou-se a caminho respondendo ao chamado da grande fogueira acesa pela Diocese de Crato-CE, convocando para o 13º Intereclesial. A luz da fogueira alumiou tão alto que fez acorrer representantes de Igrejas irmãs evangélicas e de outras religiões. Até foi avistada em toda a América Latina e Caribe, Europa, África e Ásia.
O Cariri, “coração alegre e forte do Nordeste”, se tornou a “casa” onde se encontraram a fé profunda do povo romeiro, nascida do testemunho do padre Ibiapina e do padre Cicero, da beata Maria Madalena do Espírito Santo Araújo e do beato Zé Lourenço, com a fé encarnada do povo das CEBs nascida do grito profético por justiça e da utopia do Reino.
Houve um encontro entre a Religiosidade popular e a Espiritualidade libertadora das CEBs. As duas reafirmaram seu seguimento de Jesus de Nazaré, vivido na fé e no compromisso com a justiça a serviço da vida.
Bem aventurado o povo que acreditou!
A moda da viola e da sanfona cantou este acreditar. As palavras de dom Fernando Panico, bispo de Crato, na celebração de abertura confirmaram este acreditar, proclamando: as CEBs são o jeito da Igreja ser. As CEBs são o jeito “normal” da Igreja ser. Jeito normal de o povo de Deus responder no hoje à proposta de Jesus: ser comunidade a serviço da vida.
Ao ouvir a proclamação desta boa noticia, o ventre do povo que veio em romaria para Juazeiro do Norte ficou de novo grávido deste sonho, desta utopia. A esperança foi fortalecida. A perseverança e a resistência na luta foram confirmadas. O compromisso com a justiça a serviço do bem-viver foi assumido.
E a alegria estourou como fogos a vista e do meio da alegria escutamos a memória da voz querida de dom Helder Câmara, a se fazer ouvir: Não deixem a profecia cair! Não deixem a profecia cair!
A profecia não caiu. Ecoou nas palavras do índio Anastácio: “Roubaram nossos frutos, arrancaram nossas folhas, cortaram nossos galhos, queimaram nossos troncos, mas não deixamos arrancar nossas raízes.” Raízes indígenas e quilombolas que afundam na memória dos ancestrais, no sonho de viver em terras demarcadas, livres para dançar, celebrar e festejar a terra que é mãe.
Emergiu a memória do padre Ibiapina, que já incentivava a construção de cisternas de pedra e cal e o plantio de árvores frutíferas, para conviver com a realidade do semiárido. Reanimava assim a esperança e a dignidade do povo sertanejo. O protagonismo da beata Maria Araújo canalizou os desejos mais profundos de vida e vida em abundância, o que incomodou os grandes e a hierarquia eclesiástica. O padre Cícero e o beato Zé Lourenço continuaram acolhendo os excluídos no mesmo espirito de Ibiapina. Organizaram a comunidade do Caldeirão movida pela fé, trabalho, fartura e liberdade. Esta forma de convivência com o semiárido tem continuidade nas CEBs, nas pastorais e entidades comprometidas com os pobres,
A profecia ecoou na análise de conjuntura, que levou a constatar que o Brasil ainda precisa reconhecer que no campo e na cidade, não basta realizar grandes projetos. O grande capital prioriza o agro e hidronegócio e as mineradoras, continuando a expulsar do campo para concentrar as pessoas nas cidades, tornando-as objeto de manipulação e exploração, de concepções dominadoras e produtoras de profundas injustiças. O povo continua sendo despojado de sua dignidade: seus filhos e filhas definham no mercado das drogas e no tráfico de pessoas; é destituído de seus direitos à saúde, educação, moradia, lazer; a juventude é exterminada, obscurecendo a possibilidade de se projetar no futuro por falta de oportunidades; ainda existem preconceitos e outras violências marcam as relações de etnia, cor, idade, gênero, religião. Percebemos que transformar os cidadãos e cidadãs em consumidores é ameaça para o “Bem Viver”.
Ranchos (miniplenários) e chapéus (grupos) tornaram-se espaços de partilha das experiências de busca para compreender a sociedade que é o chão onde as CEBs labutam e vivem.
E nos passos de padre Cícero, as CEBs se tornaram romeiras nas veredas do Cariri, conhecendo realidades e comunidades; vivenciando a firmeza dos mártires e profetas; experimentando a partilha e a festa do jeito que o povo nordestino sabe fazer.
A sabedoria dos patriarcas e das matriarcas nos acompanhou resgatando a memória e orando: “Só Deus é grande”, “Amai-vos uns aos outros”.
A grandeza de Deus se revela nos romeiros, povo sofrido que ao assumir a organização da romaria, na prática da solidariedade, na reza e no canto dos benditos se torna protagonista e ressignifica o espaço da vida diária.
O amor é manifestado na profecia da mulher que no acariciar, no amassar o pão, na liderança e revolução carrega em seu ventre nossa libertação; na profecia que por amor à justiça se torna ecumênica; em Jesus de Nazaré que por primeiro viveu a justiça e a profecia a serviço da vida e nos desafia a sermos CEBs Romeiras do Reino no campo e na cidade.
A vivência comunitária no terreiro do semiárido renovou nosso acreditar. Exultamos de alegria como as crianças que saltaram de alegria no ventre das mães vislumbrando o novo. O Reino se fez presente no meio de nós. Seus sinais estão presentes na irmandade: oramos e refletimos, reavivamos à nossa frente rostos de mártires e profetas da caminhada, refletimos e debatemos, formamos a mesma fila para comer juntos a gostosa comida do Cariri, à mesma pia lavamos nossos pratos. Na circularidade do serviço, do canto, do testemunho reafirmamos o compromisso de ser CEBs: Romeiras do Reino, profetas da justiça que lutam pela vida, a serviço do bem-viver, sementes do Reino e da sua Justiça, comunidades profetas de esperança e da alegria do Evangelho.
Romeiros e romeiras sempre voltam para seu chão, repletos de fé e esperança. Nós também voltamos como romeiros e romeiras grávidos da utopia do Reino que é das CEBs. Voltamos para nosso chão, com uma mensagem do papa Francisco, bispo de Roma e Primaz na Unidade. Dele recebemos reconhecimento, encorajamento, convite a continuarmos com pisada firme a caminhada de sermos Igreja Romeira da justiça e profecia a serviço da vida.
Juntamo-nos à voz de Maria que louvou ao Deus da vida que realiza suas maravilhas nos humilhados. Unamos nossas vozes á sua para com ela derrubar os poderosos de seus tronos e elevar os humildes, despedir os ricos de mãos vazias e encher de fartura a mesa dos empobrecidos.
Irmãs e irmãos, vos abraçamos com amorosidade. Amém, Axê, Auerê, Aleluia!

Foto: Comunicação Intereclesial das CEBs

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

13 Encontro das Comunidades Eclesiais de Base - Compromisso e Comunhão



Primeiro Encontro do ano 2014 da Rede Um Grito Pela Vida - Regional Manaus/Roarima


A Rede Um Grito Pela Vida, no dia 04.01, Regional Manaus/Roraima, realizou o primeiro encontro do ano de 2014, como o objetivo de concluir o planejamento do ano e na parte da tarde fez o estudo da Campanha da Fraternidade sobre o tráfico humano, bem como a agenda para os meses de janeiro e fevereiro, onde acontecerão as formações nas paróquias e áreas missionárias da Arquidiocese de Manaus.
A equipe fez um momento de confraternização como gratidão ao ano que foi intenso.


Somos humanos, não mercadoria.

Tráfico de Pessoas: Somos humanos, não mercadoria!
Este vídeo trata do tema "Fraternidade e Tráfico Humano", em sintonia com a Campanha da Fraternidade de 2014.
Você pode fazer o pedido em: http://www.mundojovem.com.br/produtos/trafico-de-pessoas-somos-humanos-nao-mercadoria